Mulher na academia apertando a sola do calcanhar, com a fáscia plantar destacada

Quem tem fascite plantar pode fazer musculação na grande maioria dos casos, e o treino de força pode até ajudar a melhorar a dor no calcanhar. O que costuma piorar o quadro é o impacto repetido (corrida, pular corda, saltos) e muitas horas em pé, e não o treino de perna em si. O caminho é trocar o que irrita por opções de menor impacto, fortalecer panturrilha e pé aos poucos e observar como o calcanhar responde no dia seguinte.

Abaixo está o que é a fascite plantar, o que muda quando o exame mostra esporão, o que ajustar na academia, um exercício com bom respaldo nos estudos e quando procurar avaliação.

O que é a fascite plantar

A fáscia plantar é uma faixa resistente de tecido que vai do calcanhar até a base dos dedos e ajuda a sustentar o arco do pé. A fascite plantar é a dor na inserção dessa faixa, na parte de baixo do calcanhar. Apesar do nome, na maior parte dos casos não há uma inflamação clássica, e sim uma alteração na forma como o tecido tolera carga. Por isso, muitos profissionais preferem falar em dor plantar no calcanhar ou fasciopatia plantar.

Os sinais mais típicos são:

  • Dor na parte de baixo do calcanhar, geralmente do lado de dentro.
  • Dor forte nos primeiros passos da manhã ou depois de ficar um tempo sentado, que melhora depois de alguns minutos andando.
  • Piora depois de muito tempo em pé, de caminhadas longas ou de corrida, às vezes mais no fim do dia do que durante a atividade.

Se a dor fica atrás do calcanhar, e não embaixo, o quadro mais provável é outro: veja o texto sobre tendinite de Aquiles na musculação.

Os fatores mais associados ao problema são o aumento rápido de corrida ou caminhada, trabalho com muitas horas em pé, excesso de peso e pouca mobilidade do tornozelo, aquela dificuldade de levar o joelho para a frente com o calcanhar no chão (diretriz de fisioterapia para dor no calcanhar, 2023).

E o esporão no calcanhar?

O esporão é um pequeno crescimento ósseo no calcanhar que aparece no raio-X. Ele é mais comum em quem tem dor plantar, mas também é encontrado em muitas pessoas que não sentem nada (Kirkpatrick e colaboradores, 2017). Ou seja, o esporão não é uma “ponta” que espeta o pé a cada passo, e ter esporão não impede o treino. Na prática, o cuidado com o esporão e com a fascite plantar costuma ser o mesmo: ajustar a carga, fortalecer e dar tempo para o tecido se adaptar.

Por que o treino de força ajuda

Num estudo com 48 pessoas com fascite plantar, um grupo fez apenas alongamento da fáscia, e o outro fez o mesmo alongamento mais um exercício de força pesado: a elevação de panturrilha numa perna só, com uma toalha enrolada embaixo dos dedos, em dias alternados. Depois de 3 meses, o grupo que treinou força estava melhor. Em 12 meses, os dois grupos tinham melhorado de forma parecida, mas o treino de força fez a melhora chegar mais cedo, com poucos minutos de exercício a cada dois dias (Rathleff e colaboradores, 2015).

O alongamento também tem seu lugar. Um alongamento específico da fáscia, puxando os dedos do pé para trás com a mão, reduziu a dor dos primeiros passos da manhã mais do que o alongamento só da panturrilha (DiGiovanni e colaboradores, 2003). Ele é simples e pode ser feito antes de levantar da cama.

Elevação de panturrilha numa perna só com toalha embaixo dos dedos: posição, subida em 3 segundos e 2 segundos parada no alto

O exercício: elevação de panturrilha com toalha

É o exercício usado no estudo de Rathleff, com ajustes para a academia:

  • Posição: em pé num degrau, com uma toalha enrolada embaixo dos dedos do pé dolorido, para que eles fiquem levantados. O calcanhar fica fora do degrau. Segure em algo para ter equilíbrio.
  • Execução: suba na ponta do pé em 3 segundos, fique 2 segundos lá em cima e desça em 3 segundos, até um pouco abaixo da linha do degrau.
  • Carga e séries: no estudo, começava com 3 séries de 12 repetições, numa carga que deixa o exercício pesado nas últimas repetições. Depois de duas semanas passava para 4 séries de 10 e, mais adiante, 5 séries de 8, colocando peso numa mochila ou usando um halter.
  • Frequência: em dias alternados, não todos os dias.
  • Começo: se a dor estiver alta, comece com as duas pernas, sem peso e sem descer abaixo do degrau.

O texto sobre treino para panturrilhas mostra outras variações que podem entrar depois que a dor estiver controlada, como a panturrilha sentada.

O que ajustar na academia enquanto o calcanhar está sensível

  • Troque o cardio de impacto. Corrida, pular corda, burpee e step costumam irritar o calcanhar. Bicicleta, elíptico, remo e natação mantêm o condicionamento com bem menos carga no pé.
  • Mantenha o treino de perna. Leg press, cadeira extensora, mesa flexora e elevação pélvica costumam ser bem tolerados, porque o pé fica apoiado e parado.
  • Cuidado com exercícios em pé por muito tempo. Séries longas de afundo ou agachamento podem incomodar no fim do treino. Se doer, reduza o volume ou divida as séries.
  • Use calçado com amortecimento e apoio no treino e no dia a dia. Treinar descalço num piso duro costuma ser pior nessa fase. Palmilhas e bandagens podem ajudar por um período, mas não substituem o fortalecimento.
  • Aumente uma coisa por vez. Ao voltar a correr ou caminhar mais, aumente devagar, e não junto com um aumento de carga no treino de perna.

Infográfico: o que evitar e o que fazer com fascite plantar — pular corda e treinar descalço versus bicicleta e tênis com apoio

Como saber se você está exagerando

A fáscia costuma responder com atraso: muitas vezes o treino parece tranquilo e a dor aparece nos primeiros passos da manhã seguinte. Por isso, essa é a melhor referência.

  • Dor até 3 ou 4, numa escala de 0 a 10, durante o exercício costuma ser aceitável.
  • Os primeiros passos da manhã seguinte devem estar iguais ou melhores do que antes do treino. Se pioraram, reduza a carga ou o volume na próxima sessão.
  • A tendência ao longo das semanas importa mais do que um dia isolado.

Essa lógica é a mesma do texto sobre treinar com dor, que explica como aplicá-la no treino todo. Se o excesso de peso faz parte do quadro, o texto sobre emagrecer sem perder massa muscular ajuda a organizar essa parte sem abandonar a musculação.

Quando procurar avaliação

  • Dor que começou depois de uma queda, uma torção ou um estalo.
  • Inchaço importante, vermelhidão ou calor no calcanhar.
  • Formigamento, dormência ou queimação na sola do pé.
  • Dor forte à noite, em repouso, ou acompanhada de febre.
  • Dor nos dois calcanhares junto com dor em outras articulações.
  • Dor que não melhora depois de algumas semanas de ajuste, ou que atrapalha andar no dia a dia.

Perguntas frequentes

Quem tem fascite plantar pode fazer agachamento e leg press?

Na maioria dos casos, sim. No leg press o pé fica apoiado e parado, o que costuma ser bem tolerado. No agachamento, observe se a dor aumenta no fim das séries ou na manhã seguinte e ajuste o volume.

Quem tem fascite plantar pode correr?

Enquanto a dor estiver alta, é melhor reduzir ou trocar a corrida por bicicleta ou elíptico. A corrida volta aos poucos, começando com distâncias curtas e alternando com caminhada, desde que os primeiros passos da manhã seguinte não piorem.

Esporão no calcanhar impede a musculação?

Não. O esporão também aparece em muitas pessoas sem dor, e o cuidado costuma ser o mesmo da fascite plantar: ajustar o impacto e fortalecer aos poucos.

Quanto tempo a fascite plantar demora para melhorar?

Costuma ser um processo de semanas a meses. No estudo citado, o treino de força já mostrava diferença em 3 meses. Constância importa mais do que intensidade.

Devo ficar em repouso?

Repouso total geralmente não é necessário. O mais indicado costuma ser reduzir o impacto, manter o treino de força e voltar às atividades de forma gradual.

Se você quer voltar a treinar sem que o calcanhar decida o seu dia, conheça a minha consultoria online de treino. Monto o treino em torno da sua dor, organizo a progressão e acompanho a resposta semana a semana.