Se você recebeu o diagnóstico de condromalácia patelar, é bem provável que já tenha ouvido alguma lista de exercícios “proibidos”: cadeira extensora, agachamento, leg press, salto. O problema é que essa lista, quando aplicada sem contexto, costuma afastar a pessoa justamente do que ela mais precisa, que é fortalecimento. Neste artigo eu vou te mostrar quais exercícios talvez você deva evitar, em que situação, e principalmente como adaptá-los para continuar treinando com segurança. É o mesmo raciocínio que uso com os alunos da minha consultoria online, onde a condromalácia é uma das condições que mais atendo. Prefere vídeo? Aqui eu explico cada um desses exercícios na prática. Antes de tudo: condromalácia não impede você de treinar A condromalácia patelar é o amolecimento da cartilagem que fica atrás da patela. Ainda não existe contato de osso com osso. O que existe é uma cartilagem mais sensível, que pode gerar dor na frente do joelho quando recebe mais pressão do que tolera naquele momento. Dois pontos importantes aqui: Nem toda dor na frente do joelho é condromalácia. Muitas vezes qualquer dor patelofemoral acaba sendo rotulada assim, quando na verdade pode ser uma tendinopatia ou outra condição. Por isso vale investigar bem o diagnóstico. O exame nem sempre explica a dor. Se você fizer um exame de imagem em pessoas de 35, 40, 45 anos, muitas vão apresentar algum grau de condromalácia sem nunca terem sentido nada no joelho. Ela faz parte, em certa medida, do envelhecimento natural da articulação. Ou seja: o diagnóstico não é um motivo para parar. Ele mostra que você precisa de um treino adaptado à sua realidade. E o principal critério para saber o que evitar não é o laudo, é a dor. Se você não tem dor, a lista abaixo muda bastante. Se ainda tem dúvida se pode ou não ir para a academia, leia também: Condromalácia patelar: pode ou não pode fazer musculação? 1. Cadeira extensora: evite os extremos do movimento A cadeira extensora é o exercício que mais aparece nas listas de “proibidos”. E muitos alunos meus se surpreendem: “Sandro, eu tenho condromalácia e faço cadeira extensora no meu treino”. Sim, e está certo. A cadeira extensora deve ser evitada quando: ela está provocando dor patelofemoral durante ou depois do treino; o joelho incha após o exercício; ela é feita de forma a colocar a maior pressão possível sobre a cartilagem. E onde está essa maior pressão? Nos dois extremos do movimento: no início, com o joelho em torno de 90°, e no final, com o joelho completamente estendido. Como adaptar a cadeira extensora Amplitude reduzida: comece o movimento com o joelho um pouco mais estendido e não estenda completamente no final. Carga controlada: com o movimento mais curto, você naturalmente não vai usar carga excessiva. Ênfase excêntrica: faça a descida mais lenta. Uma variação interessante é subir com as duas pernas e descer só com uma, aumentando o trabalho excêntrico, que é muito importante para quem tem condromalácia. A literatura mostra que a cadeira extensora pode gerar mais dor em algumas situações, mas também que ela não é proibida. Feita dessa forma, ela tem vantagens reais no fortalecimento do quadríceps. 2. Agachamento: você pode e deve fazer, mas não de qualquer jeito Aqui entra um ponto muito importante: se você tem condromalácia patelar, você pode e deve agachar. Você agacha várias vezes por dia, para sentar, levantar, pegar algo no chão. Tirar o agachamento do treino é comprometer a sua funcionalidade e a sua qualidade de vida. O que muda é a forma. Na fase de dor, eu não indico: Agachamento com barra nas costas: exige um controle bem maior do movimento. Agachamento no Smith: com a barra nas costas e o trajeto guiado, muitas vezes você não consegue estabilizar corretamente. Como adaptar o agachamento Agachamento no banco: comece sentando e levantando de um banco mais alto, dentro de um ângulo de proteção, com amplitude menor, e talvez só com o peso do corpo. Mini band nos joelhos: conforme melhorar, use uma mini band entre os joelhos para aumentar a ativação do glúteo médio. Variações mais fáceis de controlar: agachamento sumô ou agachamento taça (goblet) são ótimas opções antes de voltar à barra. Carga aos poucos: conforme ficar fácil, vá acrescentando carga gradualmente. Se o agachamento hoje dói, este conteúdo pode te ajudar: Agachamento livre: execução, benefícios e como usar corretamente. 3. Leg press: sem estender tudo e sem descer demais O leg press segue uma lógica parecida com a do agachamento, com a diferença de que o quadril fica flexionado. E existem variações (horizontal, 45°, 90°) que mudam um pouco o estímulo. O principal cuidado é: não estender completamente o joelho no final do movimento; não usar uma flexão muito profunda no início do treinamento. Você faz um movimento mais curto e, conforme ganha força e o exercício fica mais fácil, vai aumentando a amplitude aos poucos. Nas primeiras semanas, evite o leg press com amplitude total. Para entender melhor as nuances desse aparelho: Leg press para quem tem artrose no joelho: erro ou aliado? 4. Impacto e instabilidade: saltos só com progressão Recentemente um aluno me mandou uma mensagem sobre isso. O treino dele já está numa fase de transição, em que começamos a incluir saltos controlados. Um dia, na academia, ele viu um jump (aquela mini cama elástica) e resolveu fazer alguns exercícios por conta própria. Resultado: dor, e o joelho chegou a travar. O salto em si não é proibido para quem tem condromalácia. Mas ele exige um controle motor muito maior do que os outros movimentos. Numa superfície instável, como o jump, essa exigência aumenta ainda mais. Como progredir no impacto Não é no primeiro nem no segundo mês, nem logo na transição da fisioterapia para o treinamento. Comece com saltos curtos e espaçados, para dar tempo de acelerar e desacelerar. Depois passe para saltos mais sequenciais e alturas um pouco maiores. Só então inclua instabilidade. “Mas na fisioterapia eu faço exercícios em cima do jump.” Geralmente não

Read More →

Quem tem fibromialgia muitas vezes vive uma relação complicada com o exercício. De um lado, existe a recomendação de se manter ativo. Do outro, há o medo de que um treino mais intenso aumente a dor, provoque uma crise ou deixe o corpo dolorido durante vários dias. A solução não costuma estar em evitar a musculação, mas em aprender a controlar dose, intensidade, volume e progressão do treinamento. Um treino de musculação para pessoas com fibromialgia precisa considerar que a resposta ao esforço pode ser diferente daquela observada em uma pessoa sem a doença. Isso significa que simplesmente entregar uma ficha de treino convencional e pedir que o aluno aumente as cargas toda semana nem sempre é uma boa estratégia. Leia também: Como aliviar a dor lombar com exercícios e treinar corretamente Quando bem planejados, tanto o treinamento resistido quanto o exercício aeróbico podem fazer parte do tratamento não farmacológico da fibromialgia e contribuir para melhora da força, capacidade funcional, dor e qualidade de vida. O que é fibromialgia? A fibromialgia é uma condição crônica caracterizada principalmente por dor difusa e persistente. Entretanto, reduzir a doença apenas à presença de dor é simplificar demais o problema. Também são frequentes sintomas como: fadiga; alterações do sono; sensação de rigidez; maior sensibilidade à dor; dificuldade de concentração; redução da disposição para atividades do dia a dia; variações importantes dos sintomas ao longo das semanas. A fibromialgia não deve ser entendida simplesmente como uma doença do músculo. Um dos componentes importantes da condição está relacionado à maneira como o sistema nervoso processa e modula os estímulos dolorosos. Isso ajuda a entender por que determinados estímulos que seriam relativamente bem tolerados por outras pessoas podem provocar uma percepção muito maior de desconforto em alguém com fibromialgia. Quem tem fibromialgia pode fazer musculação? Na maioria dos casos, sim. Na verdade, o treinamento de força pode ser uma ferramenta extremamente interessante dentro do tratamento da fibromialgia. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Irish Journal of Medical Science avaliou estudos envolvendo treinamento resistido em pessoas com fibromialgia. Os pesquisadores encontraram efeitos favoráveis sobre dor, fadiga, força muscular e capacidade funcional. Isso é particularmente importante porque muitas pessoas com fibromialgia entram em um ciclo bastante negativo: dor → redução da atividade física → perda de força e condicionamento → menor tolerância aos esforços → mais dificuldade nas atividades diárias. A musculação pode ajudar a quebrar esse ciclo.   Leia também: Exercícios para reduzir a dor no joelho: como treinar com segurança   O problema não é necessariamente fazer musculação. O problema costuma estar em como essa musculação é prescrita e progredida. O objetivo inicial não deve ser treinar o máximo possível Quando uma pessoa começa a musculação, é comum pensar que um bom treino precisa gerar bastante cansaço ou dor muscular no dia seguinte. Para alguém com fibromialgia, essa estratégia pode ser especialmente problemática. Nas primeiras semanas, o principal objetivo deveria ser encontrar uma quantidade de exercício que o organismo consiga tolerar e repetir de maneira consistente. Em outras palavras: o melhor treino não é necessariamente aquele que gera o maior estímulo em uma única sessão, mas aquele que permite continuar treinando nas semanas seguintes. Isso muda completamente a lógica da prescrição. DMIT e fibromialgia: por que é preciso controlar o treino? A dor muscular de início tardio (DMIT) é aquela sensação de dor e rigidez que costuma surgir algumas horas depois de um esforço diferente ou mais intenso do que o habitual, podendo atingir seu pico aproximadamente entre 24 e 72 horas após o treino. Ela pode acontecer com qualquer pessoa, principalmente depois de exercícios novos, aumento abrupto de volume, maior carga ou grande quantidade de ações musculares excêntricas. Ter fibromialgia não significa que qualquer episódio de DMIT necessariamente provocará uma crise. Entretanto, provocar deliberadamente grande dano muscular ou altos níveis de dor pós-treino não costuma ser uma boa estratégia. Em uma pessoa que já apresenta aumento da sensibilidade dolorosa e pode ter recuperação mais difícil, uma sessão excessiva pode aumentar muito o desconforto e dificultar a continuidade do programa. Por isso, um dos princípios mais importantes do treino para fibromialgia é: evitar mudanças bruscas de estímulo. O volume, a carga, a frequência e a complexidade dos exercícios devem aumentar gradualmente. Periodização do treino para fibromialgia A periodização é a organização do treinamento ao longo do tempo. Para uma pessoa com fibromialgia, ela se torna ainda mais importante porque os sintomas podem variar de uma semana para outra. Um programa adequado precisa combinar duas características que aparentemente são opostas: precisa existir progressão para que ocorram adaptações; precisa existir flexibilidade para adaptar o treino aos sintomas. Imagine, por exemplo, uma pessoa que conseguiu realizar três sessões consecutivas com boa tolerância. Isso não significa que seja necessário aumentar simultaneamente o peso, o número de séries e o número de exercícios. Uma estratégia mais conservadora seria modificar apenas uma variável. É possível, por exemplo: aumentar algumas repetições; aumentar discretamente uma carga; adicionar uma série em determinado exercício; acrescentar alguns minutos de exercício aeróbico. Depois disso, observa-se a resposta.   Leia também: Exercícios para artrose de joelho: o que evitar e por quê   Essa progressão gradual permite que o profissional encontre a dose de treinamento que gera adaptação sem provocar uma piora desnecessária dos sintomas. Como começar um treino de musculação para fibromialgia? Não existe uma única ficha de treino adequada para todas as pessoas com fibromialgia. Idade, histórico de treinamento, intensidade dos sintomas, doenças associadas, qualidade do sono, nível de força e capacidade cardiovascular precisam ser considerados. Como exemplo de uma estrutura inicial, e não como uma prescrição individual, o treinamento pode começar com: 2 sessões semanais de musculação; exercícios para os principais grupos musculares; aproximadamente 1 a 2 séries por exercício inicialmente; cargas confortáveis e controláveis; repetições realizadas sem necessidade de chegar à falha muscular; intervalos suficientes para recuperação; progressão gradual conforme a resposta nas 24 a 72 horas seguintes. Com melhora da tolerância, é possível aumentar progressivamente volume, carga ou frequência. Treinar até a falha

Read More →